Sabores ancestrais: a culinária do candomblé e sua contribuição para a educação e valorização das tradições afro-brasileiras no Sertão Produtivo

Autores

DOI:

https://doi.org/10.59033/cm.v11i2.1833

Palavras-chave:

Religiões de matriz africana, Combate ao racismo religioso, Patrimônio imaterial, Comida ancestral, Saberes tradicionais

Resumo

A culinária, no contexto das religiões de matriz africana, constitui espaço de espiritualidade, memória e resistência. No Candomblé, os alimentos ofertados aos Orixás não se restringem ao campo gastronômico; são expressões simbólicas que articulam o Àiyé (mundo material) ao Orun (mundo espiritual). A cozinha de terreiro configura-se, assim, como lugar de transmissão de saberes ancestrais, preservação identitária e enfrentamento ao racismo religioso. Este trabalho apresenta resultados iniciais do projeto “Entre o Sagrado e o Sabor: memórias, rituais e tradição na culinária dos terreiros de Candomblé em Guanambi-BA”, cujo objetivo é valorizar, documentar e difundir os saberes culinários sagrados de terreiros localizados no município de Guanambi-BA. A proposta prevê a produção de um livro eletrônico culturalmente sensível, reunindo descrições dos pratos ofertados aos Orixás, seus significados rituais e seus contextos de preparo, contribuindo para o reconhecimento da culinária do Candomblé como expressão da identidade afro-brasileira e instrumento de preservação das ancestralidades na região. A metodologia articula revisão bibliográfica, entrevistas com lideranças religiosas e registros audiovisuais, buscando compreender os sentidos atribuídos aos alimentos e suas permanências culturais. Entre os resultados preliminares, destaca-se a relevância dos itans, narrativas sagradas que transmitem ensinamentos éticos, históricos e cosmológicos. Ao relacionarem os Orixás aos elementos da natureza, às virtudes humanas e às comidas que lhes são dedicadas, os itans revelam uma cosmovisão que valoriza equilíbrio, coletividade e respeito à ancestralidade. Inseridas em contextos escolares e acadêmicos, essas narrativas contribuem para a educação antirracista, ao promover o reconhecimento das matrizes africanas na formação da sociedade brasileira e ao tensionar estereótipos historicamente construídos. Nesse cenário, as comidas de terreiro ocupam posição central. É possível estabelecer relação significativa entre o amalá, prato sagrado ofertado a Xangô, e o caruru, amplamente difundido na culinária afro-brasileira. Ambos têm como base o quiabo (Abelmoschus esculentus), hortaliça de origem africana, e o azeite de dendê, elementos que evidenciam a permanência de saberes trazidos pelas populações africanas escravizadas. O amalá, preparado com quiabo, camarão seco, cebola e dendê, obedece a preceitos específicos de preparo e apresentação, reafirmando vínculos com a tradição e com o orixá da justiça. O caruru, embora mantenha dimensão religiosa, especialmente nas celebrações dedicadas aos Ibejis, incorporou-se ao cotidiano baiano e tornou-se referência da gastronomia regional. A presença comum do quiabo e do dendê demonstra como práticas rituais influenciaram diretamente a constituição da culinária brasileira. Muitos pratos hoje considerados típicos têm origem nos terreiros e carregam significados que ultrapassam o aspecto alimentar. Ao evidenciar essas conexões, o projeto reafirma que a culinária de terreiro educa, preserva memórias e fortalece identidades. Valorizar o amalá, o caruru e outras comidas ofertadas aos Orixás significa reconhecer a contribuição decisiva dos povos africanos e afro-brasileiros para a cultura nacional, fortalecendo práticas pedagógicas alinhadas à Lei 10.639/03 e à construção de uma educação antirracista e socialmente comprometida.

Biografia do Autor

  • David de Souza Ramos, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Estudante do Curso Técnico em Agroindústria do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano, Campus Guanambi

  • Daniela da Silva Aires, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Graduanda em Tecnologia em Agroindústria pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, Campus Guanambi. 

  • Taís Carolane Souza Almeida, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Bacharelado em Engenharia Agronômica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano, Campus Guanambi

  • Daniele de Brito Trindade, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Doutora em Estatística pela Universidade Federal de Pernambuco – PPGE/UFPE. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia, Campus Guanambi. 

Referências

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Publicado

2026-05-25

Como Citar

Sabores ancestrais: a culinária do candomblé e sua contribuição para a educação e valorização das tradições afro-brasileiras no Sertão Produtivo. (2026). Cadernos Macambira, 11(2), e010041833. https://doi.org/10.59033/cm.v11i2.1833