Do terreiro à horta medicinal: saberes ancestrais e sustentabilidade no Ilé Àsé Ojú Dan Láyé
DOI:
https://doi.org/10.59033/cm.v10i4.1755Keywords:
Biodiversidade, Candomblé, Plantas Medicinais, Oralidade, Meio AmbienteAbstract
O uso de plantas medicinais acompanha a humanidade desde as primeiras civilizações, sendo fundamental para a saúde, a biodiversidade e a sobrevivência coletiva. Nas religiões de matriz africana, especialmente no Candomblé, essa relação ganha dimensão simbólica ao integrar espiritualidade, cuidado e cultura. Mais que o valor das plantas em si, importa a forma como são cultivadas, preparadas e utilizadas em rituais, na alimentação e nos banhos de limpeza espiritual. Esses saberes, transmitidos pela oralidade e pela prática, preservam a memória, a identidade e a continuidade cultural das comunidades. O projeto “Raízes e Folhas: Preservação dos Saberes Ancestrais e Medicina Popular nas Religiões de Matriz Africana”, desenvolvido no âmbito do PIBIC-Af/CNPq, tem como objetivo identificar, cultivar e valorizar as folhas (em Iorubá, ewé) utilizadas em práticas rituais e medicinais no Ilé Àsé Ojú Dan Láyé, localizado na zona rural de Guanambi–BA. A pesquisa segue uma abordagem quali-quantitativa, exploratória e descritiva, organizada nas seguintes etapas: levantamento bibliográfico, entrevistas com lideranças religiosas, implantação de uma horta medicinal com manejo orgânico e elaboração de uma cartilha educativa. Entre as espécies cultivadas na horta, destacam-se a alfavaca (Ocimum gratissimum), valorizada por suas propriedades medicinais e por sua simbologia ligada ao apaziguamento e à conexão com Oxalá. A Folha-da-Costa (Kalanchoe brasiliensis Camb.), conhecida em iorubá como ewé òdúndún, desempenha múltiplas funções no Candomblé, sendo utilizada em rituais de iniciação e em diversas obrigações, além de ser reconhecida como uma folha de purificação e cura. Outra espécie é o Pèrègún (Dracaena fragrans), considerada a planta mais antiga e popular nos terreiros afro-brasileiros. Seu uso é bastante amplo, abrangendo o àgbo (banho de folhas), os sacudimentos e diversos outros rituais, o que evidencia sua relevância espiritual e cultural nas práticas religiosas. A arruda (Ruta graveolens L.) é tradicionalmente utilizada em práticas de proteção espiritual e descarrego, enquanto o tapete-de-Oxalá (Plectranthus barbatus Andrews), reconhecido por sua elevada vibração espiritual, é empregado em rituais de limpeza energética e na promoção da paz interior. A implantação da horta vai além da conservação das espécies: fortalece práticas de agricultura sustentável, promove a transmissão de saberes ancestrais e integra ciência e tradição. No Candomblé, a natureza é concebida como espaço sagrado, onde a interação entre o mundo espiritual e o material é constante. Os Orixás, como forças que regem a natureza, revelam-se nas folhas, nas águas, nos ventos, nas florestas e nos animais, expressando a energia vital que sustenta o universo. Nesse sentido, cuidar da terra e das plantas é também preservar a ancestralidade, fortalecendo o elo entre espiritualidade e materialidade. Essa cosmovisão, que valoriza a natureza como parte essencial da religiosidade, dialoga diretamente com as discussões contemporâneas sobre preservação ambiental e valorização da biodiversidade. A pesquisa reforça, portanto, a importância das plantas sagradas como patrimônio imaterial e socioambiental, promovendo práticas sustentáveis que unem tradição, identidade afro-brasileira e cuidado com o meio ambiente.
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