Saberes ancestrais e ciência no Quilombo Lagoa dos Anjos: o cantinho da saúde de Tia Iyô
DOI:
https://doi.org/10.59033/cm.v11i2.1865Palabras clave:
Etnobotânica, Plantas medicinais, Biodiversidade, Conhecimento tradicional, FitoterapiaResumen
As comunidades quilombolas preservam um valioso conjunto de saberes transmitidos oralmente, especialmente sobre o uso de plantas medicinais no cuidado com a saúde e no tratamento de doenças. Esses conhecimentos resultam de uma convivência contínua com a natureza e expressam uma relação de respeito e observação dos ciclos naturais. Nesse contexto, a etnobotânica destaca-se como campo de estudo que investiga as interações entre o ser humano e as plantas, reconhecendo a relevância cultural, social e científica desses saberes tradicionais. A valorização e a sistematização dessas práticas contribuem para a preservação do patrimônio imaterial e o fortalecimento das identidades quilombolas. Nessa perspectiva, o projeto “Mãos que Cultivam: valorização e preservação do conhecimento ancestral das plantas medicinais da Comunidade Quilombola Lagoa dos Anjos”, desenvolvido por estudantes do curso de Licenciatura em Ciências Biológicas, teve como objetivo valorizar e difundir o conhecimento tradicional sobre o uso de plantas medicinais no quilombo Lagoa dos Anjos, integrando saberes populares e conhecimento científico. A pesquisa caracterizou-se como qualitativa, de natureza exploratória e descritiva, com abordagem etnobotânica. A coleta de dados foi realizada por meio de visitas à comunidade, observação participante no “cantinho da saúde”, rodas de conversa e entrevistas semiestruturadas com a detentora dos saberes tradicionais, tia Iyô, mediante consentimento prévio. As informações obtidas foram registradas em diário de campo e posteriormente organizadas e analisadas por meio de análise de conteúdo. Paralelamente, realizou-se levantamento bibliográfico em bases científicas para identificar evidências fitoquímicas e farmacológicas relacionadas às espécies mencionadas, promovendo o diálogo entre o conhecimento ancestral e a literatura acadêmica. Dentre as espécies observadas no “cantinho da saúde” de tia Iyô destacam-se a Cúrcuma (Curcuma longa L.), tradicionalmente utilizada no tratamento de inflamações, dores articulares e distúrbios digestivos, cujos estudos científicos identificam a curcumina como composto bioativo de ação anti-inflamatória, antioxidante e antimicrobiana; o Alecrim (Salvia rosmarinus), empregado como tônico natural, digestivo e estimulante, com presença de compostos fenólicos e óleos essenciais de propriedades antioxidantes e neuroprotetoras; e a Alfavaca (Ocimum gratissimum L.), utilizada como calmante e anti-inflamatório, cujos constituintes, como eugenol e trans-cariofileno, apresentam atividade antimicrobiana e analgésica. O projeto reafirma a legitimidade dos saberes populares, articulando-os à investigação científica como estratégia para validar, ampliar e proteger essas práticas. Ao integrar a experiência tradicional aos estudos da fitoterapia, promove uma abordagem interdisciplinar que fortalece o cuidado sustentável com a saúde, contribui para a preservação da biodiversidade e salvaguarda a memória cultural da comunidade. Transmitido oralmente entre gerações, esse patrimônio enriquece as práticas locais e pode ainda impulsionar avanços científicos e tecnológicos na descoberta de novos medicamentos.
Referencias
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