Reúso de águas cinzas como prática de justiça socioambiental em comunidade tradicional de matriz africana no Sertão Produtivo

Autores

DOI:

https://doi.org/10.59033/cm.v11i2.1834

Palavras-chave:

Semiárido, Sustentabilidade hídrica, Racismo ambiental, Candomblé, Tecnologias sociais

Resumo

A crise hídrica no semiárido brasileiro evidencia desafios sociais, culturais e ambientais que afetam, de modo particular, comunidades tradicionais de matriz africana, historicamente invisibilizadas pelas políticas públicas e marcadas pelo racismo ambiental. Nesses contextos, a água assume não apenas uma dimensão prática, mas também espiritual, sobretudo no Candomblé, em que constitui elemento sagrado central para os rituais e para os cuidados com a vida. O acesso à água potável e ao saneamento básico é reconhecido como um direito humano essencial e um dos pilares do desenvolvimento sustentável. No entanto, o Ilé Àsé Ojú Dan Láyé, localizado na Fazenda Tabúa Grande, na zona rural de Guanambi (BA), a apenas 4 km da sede urbana, enfrenta persistentes desafios relacionados à escassez hídrica e à ausência de infraestrutura sanitária adequada, sobretudo pela falta de acesso a redes públicas de abastecimento de água. A comunidade depende de caminhões-pipa, o que compromete diretamente a qualidade de vida dos moradores e evidencia a precariedade no fornecimento hídrico. Essa realidade reflete um cenário recorrente em áreas rurais do Brasil, onde dados do Censo Demográfico de 2022 apontam que mais de 4,8 milhões de pessoas vivem em domicílios sem acesso à água encanada, sendo que a maior parte, cerca de 67%, o equivalente a aproximadamente 3,2 milhões de indivíduos, está concentrada na região Nordeste. Além da limitação no acesso à água potável, a ausência de sistemas de tratamento de efluentes domésticos, especialmente das águas cinzas (provenientes de chuveiros, pias e máquinas de lavar), agrava a situação. O descarte inadequado contribui para a contaminação do solo e dos corpos hídricos e representa desperdício de um recurso que poderia ser reutilizado em práticas sustentáveis, como a irrigação de hortas comunitárias. Diante desse contexto, encontra-se em fase inicial a pesquisa “Entre a Escassez e a Resistência: tratamento de águas cinzas como prática sustentável em comunidade de matriz africana no Sertão Produtivo”, vinculada ao PIBIC-Af/CNPq. O estudo tem como objetivo avaliar, em escala real, a eficiência de um sistema ecológico de tratamento e reúso de águas cinzas no terreiro Ilé Àsé Ojú Dan Láyé. A metodologia contempla diagnóstico participativo da produção de águas cinzas; implementação de um sistema composto por caixa de gordura, filtros biológicos e zona de raízes; análises físico-químicas e microbiológicas da água antes e após o tratamento; oficinas educativas sobre uso consciente da água; e a elaboração de protocolos de manutenção. Os resultados esperados incluem a expansão da autonomia hídrica da comunidade e a produção de materiais educativos e técnicos que subsidiem a replicabilidade da experiência em outros territórios com desafios semelhantes. Ao articular ciência e tradição, o projeto pretende não apenas validar a viabilidade técnica de tecnologias acessíveis e de baixo custo, mas também promover justiça hídrica e ambiental, fortalecer os modos de vida tradicionais e reafirmar os terreiros como espaços de resistência, espiritualidade e inovação socioambiental.

Biografia do Autor

  • Tais Carolane Souza Almeida, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Graduanda em Bacharelado em Engenharia Agronômica pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano, Campus Guanambi. 

  • João Vitor dos Santos Ramos, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Licenciando em Ciências Biológicas do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano, Campus Guanambi. 

  • Daniele de Brito Trindade, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano – Campus Guanambi

    Doutora em Estatística pela Universidade Federal de Pernambuco. Professora do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano, Campus Guanambi. 

Referências

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Publicado

2026-05-25

Como Citar

Reúso de águas cinzas como prática de justiça socioambiental em comunidade tradicional de matriz africana no Sertão Produtivo. (2026). Cadernos Macambira, 11(2), e010041834. https://doi.org/10.59033/cm.v11i2.1834