Comida e a ontologia de ser em família

uma escrita colaborativa

Autores

DOI:

https://doi.org/10.35642/rm.v10i2.2059

Palavras-chave:

Fome, Desperdício, Memórias de família, Autoetnografia

Resumo

Este artigo propõe uma reflexão sobre o alimento na dimensão constitutiva do existir em família, com o intuito de compreender como o cotidiano da partilha de alimentos nas refeições familiares transcende a mera nutrição e se torna um gesto de pertencimento, memória, afeto e reconhecimento. O trabalho é resultado de uma escrita colaborativa entre três autores, utilizando a Autoetnografia Colaborativa à Deriva como método, o que permite o entrelaçamento de vozes e a valorização de percursos pessoais e familiares. Os relatos apresentados exploram a “fome” em diferentes temporalidades, revelando como a privação alimentar, seja histórica (imigrantes fugidos de pogroms) ou marcada pela escassez e luta por terra (comunidade quilombola), internalizou o imperativo moral de “não deixar comida no prato”. Em contraste, evidencia a experiência de escassez, que enfatiza o aproveitamento integral dos alimentos, e o ato de dividir o pouco, como máxima de solidariedade e afeto, sendo a Avó a figura central na distribuição cuidadosa. O texto também aborda a comida como objeto de poder e controle (despensa trancada), gerador de motim por alimento, que moldou a forma como a família lida com a comida e o afeto. Conclui-se que o ato de comer em família não apenas satisfaz uma necessidade biológica, mas reafirma identidades e o vínculo sustentado do ser-com-o-outro. As narrativas costuradas evidenciam que a relação com o alimento é social, econômica, política e afetiva, constituindo um legado ancestral contra o desperdício, em cenários de coexistência entre fome generalizada e desperdício maciço.

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Biografia do Autor

  • Elaine Pedreira Rabinovich, Universidade Católica do Salvador

    Psicóloga Clínica. Pós-Doutora em Psicologia e História pela Universidade de São Paulo (USP). Doutora em Psicologia Social (USP). Coordenadora do Grupo de Pesquisa Família, (Auto)Biografia e Poética (FABeP-UCSal). Docente adjuntada da Universidade Católica do Salvador (UCSal), Salvador, Bahia, Brasil. 

  • Diana Léia Alencar da Silva, Afya Centro Universitário Salvador

    Pedagoga/licenciada em Letras. Doutora em Família (UCSal). Mestra em Desenvolvimento Humano e Responsabilidade Social (FVC). Coordenadora pedagógica na Secretaria Municipal de Salvador e Professora e coordenadora da CPA no Centro Universitário Afya Salvador, Bahia, Brasil.

  • Antonio José de Souza, Secretaria Municipal de Educação de Itiúba (BA) / Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

    Teólogo/Historiador. Pesquisador de Pós-Doutorado em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Doutor em Família na Sociedade Contemporânea (UCSal) – com período sanduíche na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS/Paris). Mestre em Educação e Diversidade (UNEB). Professor da Educação Básica do município de Itiúba (BA). Integrante do Laboratório de Políticas Públicas, Ruralidades e Desenvolvimento Territorial (LaPPRuDes/IFBaiano) e do Grupo de Pesquisa Família, (Auto)Biografia e Poética (FABeP/UCSal).

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Publicado

2026-02-04

Edição

Seção

NÚMERO ESPECIAL: “Sobre si, os seus e o mundo – trajetórias de famílias da roça em autoetnografias”

Como Citar

Comida e a ontologia de ser em família: uma escrita colaborativa. Revista Macambira, [S. l.], v. 10, n. 2, p. 1–13, 2026. DOI: 10.35642/rm.v10i2.2059. Disponível em: https://revista.lapprudes.net/RM/article/view/2059. Acesso em: 6 fev. 2026.