Comida e a ontologia de ser em família
uma escrita colaborativa
DOI:
https://doi.org/10.35642/rm.v10i2.2059Palavras-chave:
Fome, Desperdício, Memórias de família, AutoetnografiaResumo
Este artigo propõe uma reflexão sobre o alimento na dimensão constitutiva do existir em família, com o intuito de compreender como o cotidiano da partilha de alimentos nas refeições familiares transcende a mera nutrição e se torna um gesto de pertencimento, memória, afeto e reconhecimento. O trabalho é resultado de uma escrita colaborativa entre três autores, utilizando a Autoetnografia Colaborativa à Deriva como método, o que permite o entrelaçamento de vozes e a valorização de percursos pessoais e familiares. Os relatos apresentados exploram a “fome” em diferentes temporalidades, revelando como a privação alimentar, seja histórica (imigrantes fugidos de pogroms) ou marcada pela escassez e luta por terra (comunidade quilombola), internalizou o imperativo moral de “não deixar comida no prato”. Em contraste, evidencia a experiência de escassez, que enfatiza o aproveitamento integral dos alimentos, e o ato de dividir o pouco, como máxima de solidariedade e afeto, sendo a Avó a figura central na distribuição cuidadosa. O texto também aborda a comida como objeto de poder e controle (despensa trancada), gerador de motim por alimento, que moldou a forma como a família lida com a comida e o afeto. Conclui-se que o ato de comer em família não apenas satisfaz uma necessidade biológica, mas reafirma identidades e o vínculo sustentado do ser-com-o-outro. As narrativas costuradas evidenciam que a relação com o alimento é social, econômica, política e afetiva, constituindo um legado ancestral contra o desperdício, em cenários de coexistência entre fome generalizada e desperdício maciço.
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